Veja as respostas do Leo Rocha para suas perguntas mais frequentes.

 

Como você conheceu os índios, e por que eles te convidaram para viver com eles? 

Eu me mudei para Chapada dos Guimarães com a minha mãe aos seis anos e, quando eu tinha onze anos, ocorreu aqui o 1o Encontro Nacional de Pajés. Foi um evento que atraiu índios do Brasil inteiro, e eu fui até o sítio onde ele estava sendo realizado para conhecer mais sobre a cultura indígena. Acabei conhecendo o Pira, um guerreiro Yawalapiti, e depois o Pajé Tacumã. Eles ficaram intrigados comigo, porque eu já conhecia muitas coisas sobre a natureza e muitas plantas medicinais. Mostrei para eles uma árvore que era especial para eles, que não existia no Xingu mas estava registrada nas histórias contadas de geração em geração. O Tacumã decidiu que eu tinha que ir com eles para o Xingu, e me perguntou se eu queria. Eu disse que sim. 


Você tinha só 11 anos, como a sua mãe deixou? 

A minha mãe me criou de uma forma muito diferente. Quando eu tinha cinco anos, ela ficou muito doente e o médico disse que ela não tinha muito tempo de vida, então nós nos mudamos para a Chapada dos Guimarães e ela foi me ensinando, com muito amor, a ser independente. Aos seis anos eu já fazia comida em casa, já cuidava da horta. Com essa mudança de vida minha mãe melhorou, está viva até hoje. Nós morávamos em um sítio e eu passava muito tempo no mato. Estava acostumado com a natureza. Por isso, quando Tacumã me convidou para ir para o Xingu, ela achou que seria uma experiência de vida interessante e me deixou ir.


E você, não ficou com medo? 

Eu sempre tive um fascínio muito grande pelos índios, desde que me entendo por gente. Quando eles me chamaram para ir, não tive medo. Eu senti muita vontade de ir, sabia que era uma grande honra.


Você vai com frequência para o Xingu?

Não muito, porque a viagem é longa, difícil e cara. Além disso, precisa ter autorização da Funai para entrar no parque, e não é fácil conseguir. Depois da primeira vez, eu voltei lá quando eu tinha 17 anos, e depois só em 2014. 


Qual é a coisa mais importante que você aprendeu com os índios?

Essa é uma pergunta difícil, são muitas coisas. Mas acho que o mais importante foi saber ver a natureza de uma forma mais tranquila, sem medo, e entender as relações complexas que existem entre os animais, as plantas e nós mesmos. Com isso, eu aprendi a entrar em ambientes difíceis, com animais perigosos, com mais segurança. Fora isso, uma coisa que me dá muito orgulho de ter aprendido a fazer é o arco preto, que é o mais tradicional do Xingu. É uma peça muito difícil de aprender a fazer, tanto que os índios usam como dote de casamento. Como o Paru, meu pai índio, era cacique, ele determinou que o índio que dominava a técnica me ensinasse a fazer o arco preto. Ele tentou me fazer desistir, mas eu persisti. Levei meses para aprender. Acho que essa experiência me fez escolher a profissão de marceneiro. Da última vez que fui para o Xingu, descobri que o índio que me ensinou a fazer o arco preto havia morrido, e poucos sabem fazer. Em algumas aldeias, mais nenhum índio sabe fazer. Agora, eu que tenho a responsabilidade de ensinar.


Quais são os seus planos para o futuro?

Eu acredito que eu tenho a missão de ajudar os índios a valorizar e resgatar a cultura deles, e ajudar o Brasil a entendê-los. Quero que eles consigam viver dessa cultura, preservando e restaurando-a. Foi por isso que abri a loja. Quando eles me perguntam o que eu quero comprar, eu respondo: “O que vocês não estão mais fazendo?” Aí eles vão até os índios mais velhos e aprender a fazer peças que, se não fosse por isso, ficariam esquecidas.


Como você foi escolhido para o programa Desafio em Dose Dupla?

A equipe de produção estava procurando candidatos para participar da série, e tinham a orientação de procurar em entidades que trabalhassem com índios, como ONGs e projetos sociais. Uma das produtoras tinha gravado um comercial na Chapada e decidiu ligar para uma guia turística que ela conheceu aqui, pedindo uma indicação. Eles buscavam uma pessoa que tivesse morado com índios, que soubesse e gostasse de andar no mato, e de preferência descalço. A guia me indicou e começou o contato com a produtora. Isso foi em 2011. Eu a princípio não entendi que era comigo, perguntei: “Como eu posso te ajudar a achar esse cara?” Depois disso, participei de alguns testes com pelo menos 50 candidatos, durante uns 5 meses. Na etapa final houve um teste prático, tínhamos que conseguir fogo, água e comida em duas horas, tudo gravado. 


No programa, você e o coronel Leite discordam muito. Isso é real? Como é a relação de vocês?

A discordância é real, nós temos formações muito diferentes. Deve ser bem difícil para ele andar comigo, porque ele tem um treinamento formal, ele anda todo equipado e está sempre comandando, e eu sou o oposto disso, ando descalço e não obedeço as ordens dele. Mas ele é uma boa pessoa. Quando eu vejo ele se encontrando com pessoas que serviram com ele, todos dizem que ele os ajudou muito. 


Qual foi a situação mais perigosa que você já passou?

Uma vez, no final de um período de gravações, eu fui picado por uma aranha marrom, que é uma das mais venenosas que existem. Eu fiquei muito mal. Eu tratei a região da picada com pedras quentes e consegui reverter a necrose da ferida, mas depois de dois dias eu comecei a ter febres fortes, confusão mental. Meu rim quase parou de funcionar, mas eu me tratei com plantas medicinais e a função renal foi voltando. Quando eu já estava um pouco melhor, eu fui ao hospital. Mas eu atribuo o sucesso disso aos rituais de escarificação que eu já fiz com os índios, em que eu fiz a minha pele sangrar pra facilitar a entrada dos remédios e educar o sistema imunológico a se proteger de infecções.


Como funcionam as vivências?

A ideia é dar às pessoas a oportunidade de passar uma noite dormindo no mato, experimentando técnicas indígenas, comidas indígenas, aproveitando o que a natureza oferece. Cada vivência é diferente, não tem um roteiro certo porque depende muito do que a natureza vai apresentar a cada dia. A experiência com chuva, por exemplo, vai ser completamente diferente da vivência em um dia de sol.


O que as pessoas aprendem nas vivências?

Eu falo muito de costumes indígenas, algumas coisas de plantas medicinais, algumas técnicas como onde obter cordas, como fazer fogo de maneiras diferentes. Preparamos alguns alimentos indígenas também. De modo geral, as pessoas aprendem muitas coisas sobre como encarar a natureza, a vida no mato, e a filosofia dos índios de várias etnias. É uma experiência que surpreende muito as pessoas.


Qualquer um pode fazer as vivências?

Sim, já tivemos participantes de 7 até 70 anos! Uma das coisas que eu gosto desse formato é que não é para pessoas altamente preparadas. A minha intenção é que o maior número de pessoas possível tenha a oportunidade de ter este convívio e este entendimento com a natureza. Não é para ninguém passar apuros. Mas, para quem se interessar, é possível fazer formatos mais puxados também.


Como surgiu a ideia de abrir a loja?

Eu queria encontrar uma forma de retribuir aos índios todo o conhecimento que eles me passaram. Eu decidi que a loja seria a melhor maneira, pois é uma forma sustentável de ajudá-los a viver da própria cultura, além de resgatar aspectos esquecidos. Muitas vezes eu peço um tipo de produto que eu sei que eles não estão produzindo para incentivar que eles aprendam com os mais velhos como fazer, para que o conhecimento não seja perdido.


De onde vêm as peças?

Hoje trabalhamos com pouco mais de 20 etnias diferentes, a maioria do Alto Xingu, mas tem algumas da Amazônia, Maranhão, Rondônia, Guaranis (região Sul), dos Carajás, da Ilha do Bananal. Cada hora aparece um índio querendo vender alguma coisa aqui. Tivemos contato com tribos super preservadas que estão trazendo coisas maravilhosas. É uma grande escola, nós e os clientes aprendemos muito, e a loja acabou virando um atrativo turístico aqui na Chapada dos Guimarães.

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