Noticias, dicas e novidades do Leo Rocha

Cinto de Tucum, Um sinal de fertilidade

Certo dia, Atolo, ainda adolescente, pediu à sua mãe que a enterrasse. Diante da insistência e tomada de profunda tristeza, a mãe, por fim, atendeu ao pedido da filha, enterrando-a até a cintura numa terra fofa e fria. Após seu enterro, a menina Atolo pediu à sua mãe que não olhasse para trás, devendo regressar para visitá-la somente depois das primeiras chuvas. Recomendou, por fim, que não esquecesse de lhe trazer peixe e que mantivesse o terreno a sua volta sempre limpo e bem cuidado. Kokotero fez tudo conforme pediu a filha Atolo e, ao voltar ao local, encontrou uma roça de mandioca bonita e bem formada. De cada parte do corpo da menina havia brotado uma nova planta, dando origem às variedades de mandioca hoje cultivadas pelos Enawene-Nawe. A mãe visitava frequentemente a roça, limpava em volta das plantas e retirava com cuidado suas raízes levando-as para a aldeia, onde todos se alimentavam.

Ao assistirem ao enterro de Atolo e notando que tinha sido bom seu resultado, outras mães resolveram também enterrar suas filhas, e foi assim que surgiram a batata doce, o cará, a araruta e o inhame. Porém, tomada de inveja e percebendo que Kokotero desfrutava com alegria da colheita de menina-mandioca, sua irmã Atanero entrou desautorizadamente na roça e arrancou com brutalidade as raízes da planta. A menina mandioca gritou forte de dor e todas as outras plantas também gritaram.

Ao ouvi-la, Kokotero partiu correndo em direção à roça. Percebendo o que havia acontecido, nada mais pôde fazer. Desse dia em diante, a mandioca nunca mais se multiplicou por conta própria, caindo na dependência dos Enawene-Nawe em cultivá-la ano após ano. (MENDES DOS SANTOS, 2006, p. 188)

Para Mendes dos Santos (2001, p. 117), enterrar até a cintura “é uma maneira de não matar, mas de manter suas condições de vida, de possibilitar a continuidade de viver e reproduzir-se. Assim se fez com Atolo, assim se faz com as manivas de mandioca”.

A cintura é também a parte do corpo da mulher que recebe o cinto de tucum. Segundo Jakubaszko (2003, p. 40), estes cintos, muito valorizados, indicam o potencial reprodutivo das mulheres: “quando jovens, ostentam muitas voltas de tucum na cintura, ao envelhecer estas voltas vão diminuindo chegando a poucas, três ou quatro apenas, nas mulheres idosas”.

Etnia: Enawene-Nawe
Localização: Mato Grosso
População: 641 (Siasi/Sesai 2012)
Tronco Linguístico: Aruak

Fragmentos do texto Transformações dos corpos: um estudo do conceito de corpo enawene nawe, da Mestre em antropologia Maria Christina Almeida Barra.

Leave a reply

Copyright © 2015 Leo Rocha Brasil     |     Desenvolvido por DVsmall